Economia
Por que mais brasileiros estão virando motoboys mesmo com renda instável e mais riscos?
Motoboys por aplicativo têm rendimento médio menor do que os demais trabalhadores da categoria
Rowan Freeman/Unsplash
📦 Eles levam comida, remédios, documentos, compras e até peças de reposição em poucos minutos. Enfrentam chuva, calor e o trânsito pesado das grandes cidades. Há tempos, os motoboys passaram a ocupar um papel central na economia cotidiana no Brasil.
Basta imaginar um cenário em que os aplicativos de entrega saiam do ar por algumas horas: farmácias começam a atrasar pedidos, refeições se acumulam em restaurantes, pequenos comércios perdem vendas e consumidores deixam de receber produtos urgentes.
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A rapidez, que antes era um diferencial, virou uma expectativa permanente. E, por trás dessa engrenagem, está um contingente cada vez maior de brasileiros que encontrou na motocicleta uma porta de entrada quase imediata para o mercado de trabalho.
Donos de ‘achadinhos’ faturam até R$ 100 mil por mês com perfis anônimos
Dados da Abraciclo mostram que 2025 terminou com recorde de licenciamentos no varejo, com 2,1 milhões de motocicletas vendidas — uma alta de 17,1% em relação a 2024, puxada pelo trabalho por aplicativos. A tendência segue em alta: para 2026, a projeção é de que esse número chegue a 2,3 milhões de unidades.
E, segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, empresas do setor emplacaram mais de 70 mil motocicletas em 2024, um salto de quase 90% na comparação com o ano anterior. Ao todo, a frota das locadoras chegou a 140 mil unidades.
O número mostra que, em muitos casos, o aluguel passou a funcionar como um atalho para começar a trabalhar rapidamente — sem entrada, sem análise de crédito rigorosa e sem a necessidade de assumir financiamentos de longo prazo, explica Geraldo Carneiro, fundador da Byker, empresa especializada em locação de motocicletas.
Para Carneiro, a motocicleta ganhou um papel estratégico justamente por reunir características difíceis de encontrar em outros modelos de trabalho urbano: baixo custo operacional, rapidez para começar e alta demanda, especialmente nas grandes cidades.
“Ela [motos] tem baixo custo operacional comparado ao carro, alta mobilidade urbana e permite que milhares de pessoas ingressem rapidamente no mercado de entregas”, completa.
Ao mesmo tempo, o avanço do delivery expõe uma nuance importante dessa transformação: parte dos postos criados nos últimos anos está inserida em um modelo híbrido, que mistura autonomia, informalidade e dependência das plataformas digitais.
Na prática, muitos entregadores não estão completamente fora das estatísticas de formalização, mas também não têm acesso às garantias típicas do emprego tradicional.
🔎 Não há salário fixo, férias remuneradas ou renda previsível. O ganho depende diretamente da quantidade de entregas realizadas, do tempo conectado aos aplicativos e da dinâmica de demanda de cada cidade.
Em um país ainda marcado por desigualdade, endividamento e dificuldades de recolocação profissional, o delivery passou a funcionar como uma espécie de renda de emergência permanente.
A contrapartida é que o mesmo modelo que facilita o acesso também concentra quase todos os custos e riscos na mão do trabalhador.
É o entregador quem paga combustível, troca de óleo, pneus, manutenção, seguro, documentação e, em muitos casos, o aluguel ou financiamento da moto. Quanto mais roda, maior o desgaste do veículo. Além disso, quanto mais tempo conectado, maior a exposição ao trânsito e aos acidentes.
Para Carneiro, o crescimento do aluguel de motos revela uma tentativa de tornar minimamente previsível uma atividade marcada por renda instável. “Muitos profissionais preferem trocar o risco de uma manutenção inesperada por um custo fixo semanal ou mensal”, diz.
Renda não cresceu junto
O estudo mais recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, intitulado “Plataformização e Precarização do Trabalho de Motoristas e Entregadores no Brasil”, mostrou que a renda média da categoria caiu de cerca de R$ 2.250 para aproximadamente R$ 1.800 ao longo dos últimos anos.
Apesar dessa redução, dados do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento apontam um cenário um pouco diferente. Segundo o levantamento, a renda líquida média mensal dos entregadores variou entre R$ 2.669 e R$ 3.581 até 2024.
🔎 A diferença entre os estudos ajuda a mostrar como a renda no setor varia conforme região, jornada, tempo conectado aos aplicativos e quantidade de entregas realizadas. Ainda assim, especialistas apontam que o crescimento da atividade veio acompanhado de uma intensificação da rotina de trabalho.
O estudo do Ipea, por exemplo, indica aumento das jornadas mais extensas. Entre os entregadores plataformizados, cresceu a proporção dos que trabalham acima de 49 horas semanais e também daqueles que ultrapassam 60 horas por semana.
O cenário expõe uma contradição: mais pessoas passaram a trabalhar no setor ao mesmo tempo em que a rotina se tornou mais intensa, marcada por jornadas mais longas e maior pressão por produtividade na tentativa de aumentar os ganhos.
Na prática, isso significa passar mais tempo conectado aos aplicativos, rodar mais quilômetros por dia e ampliar a exposição ao trânsito e aos riscos da atividade.
Os efeitos aparecem nos dados de acidentes. Um levantamento da Ação da Cidadania revelou que 41,3% dos entregadores de alimentos por aplicativos já sofreram algum acidente durante o trabalho.
O estudo, feito com 1,7 mil profissionais, mostrou ainda que mais da metade dos trabalhadores, 56,7%, atua todos os dias da semana, em jornadas que ultrapassam 10 horas diárias, sem direito a folga.
Uma reportagem exibida pelo Fantástico no ano passado evidenciou o impacto dos acidentes de moto tanto na vida de jovens trabalhadores quanto nos gastos do sistema público de saúde.
Em 2024, as internações de motociclistas custaram mais de R$ 257 milhões ao SUS. Segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, mais de 60% das mortes no trânsito envolvem motos.
O presidente da entidade, Antônio Meira Júnior, afirmou que quem está em uma motocicleta tem 17 vezes mais chance de morrer em acidentes do que ocupantes de automóveis.
“Essa epidemia de acidente de trânsito é tão grave que, em 71% dos municípios do Brasil, os acidentes de trânsito matam mais do que as armas de fogo”, disse.
As vítimas são majoritariamente jovens entre 20 e 39 anos, justamente a faixa etária que concentra grande parte dos trabalhadores do delivery.
Para quem depende da moto para sobreviver, um acidente pode representar perda imediata da renda. Carlos de Jesus Santos, que falou ao Fantástico enquanto se recuperava de um acidente, resume esse temor:
“Se acidentar, já era. Acaba o trabalho (…) Eu vou voltar. É o transporte mais barato para fazer esse tipo de serviço”.
Economia
Correção: jogos do Brasil em dias úteis
O g1 errou ao informar que o Brasil teria mais três jogos em dias úteis se chegar à final da Copa do Mundo. Na verdade, serão dois jogos, nos dias 11 e 15 de julho. A informação foi atualizada às 18h30 do dia 29 de julho de 2026. Leia mais aqui.
Economia
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Economia
Governo propõe aumentar limite do MEI para R$ 140 mil e ampliar contratação de funcionários
Simples Nacional.
Simples Nacional/Divulgação
Um projeto de lei complementar enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Congresso Nacional nesta segunda-feira (29) propõe ampliar o limite de faturamento anual do Microempreendedor Individual (MEI) e permitir a contratação de até dois funcionários.
A proposta prevê um reajuste progressivo do teto, que hoje é de R$ 81 mil por ano. Pelo texto, o limite passará para R$ 110 mil em 2027 e chegará a R$ 140 mil em 2028. A medida atinge mais de 13 milhões de microempreendedores registrados no país.
Agora no g1
O projeto foi entregue ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e faz parte de uma articulação do governo federal para atualizar as regras do regime simplificado.
Atualmente, o teto do MEI não é reajustado desde 2018. Segundo o governo, a defasagem acumulada ao longo dos anos — causada pela inflação e pelo aumento natural das receitas — tem dificultado a permanência de empreendedores na categoria.
A proposta busca justamente evitar que pequenos negócios precisem migrar para regimes tributários mais complexos à medida que crescem. Com o novo modelo, a ideia é permitir que os empreendedores ampliem suas atividades sem sair da formalização.
Além do aumento do teto, o projeto também altera as regras de contratação. Hoje, o MEI pode ter apenas um funcionário. Com a mudança, será possível contratar até dois empregados, o que, na avaliação do governo, deve dar mais flexibilidade à organização dos negócios e estimular a geração de empregos formais.
O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, afirmou que a iniciativa tem caráter estratégico para a economia.
“Esse conjunto de medidas foi construído para remover obstáculos, ampliar oportunidades e dar condições para que milhões de empreendedores possam crescer, contratar e prosperar”, disse.
A proposta foi elaborada em conjunto com os ministérios da Fazenda, do Planejamento e Orçamento e da Gestão e Inovação em Serviços Públicos.
Agora, o texto começa a tramitar no Congresso e ainda precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado antes de entrar em vigor.
Simples Nacional
Criado em 2006, o Simples Nacional tem por objetivo de estimular as pequenas empresas. O regime especial consiste na unificação de alguns tributos com alíquota mais favoráveis para o empreendedor.
A reforma tributária sobre o consumo, aprovada em 2023, não alterou os limites de enquadramento das empresas do Simples e do MEI.
Atualmente, podem aderir ao Simples:
microempreendedor individual que fatura até R$ 81 mil por ano;
transportador autônomo de cargas que fatura até R$ 251,6 mil por ano;
microempresas com até R$ 360 mil por ano; e
empresas de pequeno porte com até R$ 4,8 milhões anuais.
De acordo com estimativas da Receita Federal, o governo vai deixar de arrecadar R$ 136 bilhões em 2026 com o Simples Nacional.
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