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Economia

Desenrola 2.0: por que o total de endividados aumentou desde a primeira versão do programa?

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Prós e contras do Desenrola 2.0
Com o endividamento das famílias em níveis recordes, o governo federal voltou a apostar em um programa já conhecido para tentar conter um problema persistente no país.
Relançado no início de maio, o Novo Desenrola Brasil (ou Desenrola 2.0) chega a poucos meses das eleições presidenciais, em um momento no qual o Palácio do Planalto busca fortalecer pautas com impacto direto no bolso da população diante de um cenário político desafiador no Congresso.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Dois anos após o encerramento do último programa de renegociação de dívidas, em maio de 2024, o país registrou um aumento de 10,3 milhões de inadimplentes, chegando ao total de 82,8 milhões.
🤔 Mas, afinal, por que o número de endividados aumentou desde a primeira edição do Desenrola?
Em entrevistas recentes, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, atribuiu a alta da inadimplência a um “efeito sanfona”.
Segundo ele, o fenômeno foi provocado pelas oscilações da taxa básica de juros da economia, a Selic, e pelos impactos ainda persistentes da pandemia de Covid-19, período em que o desemprego subiu e a renda estagnou.
“Passamos por um período, especialmente durante a pandemia, sem reajuste de renda e com desemprego elevado. Muitas pessoas ficaram impossibilitadas de trabalhar e acabaram se endividando”, afirmou Durigan em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, neste mês.
Especialistas, porém, avaliam que o programa teve efeito limitado e temporário, sendo visto por parte do mercado como um “fracasso”, e que o problema vai além dos juros altos.
O avanço da inadimplência envolve uma combinação de inflação persistente (especialmente nos alimentos), custo de vida elevado, renda insuficiente, crédito caro e falta de educação financeira.
Como o g1 mostrou, esse cenário ainda persiste em 2026. Apesar da melhora recente no mercado de trabalho, a geração de vagas não foi suficiente para recompor o poder de compra, nem o aumento da renda média foi capaz de conter a inadimplência persistente.
“O juro nada mais é do que o custo do dinheiro. Se o dinheiro está caro, tende a haver mais inadimplência”, afirma o economista Tiago Velloso. “Mas esse não é o único fator.”
Segundo ele, o cenário pós-Desenrola 1 combinou problemas herdados da pandemia com novas questões da economia mundial. Conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia elevaram os preços do petróleo e pressionaram a inflação global, retardando a queda dos juros no Brasil.
A especialista em finanças Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, também chama a atenção para a rápida digitalização do sistema financeiro, que ampliou o acesso ao crédito fácil sem o devido preparo da população.
“O país conseguiu uma digitalização rápida, mas isso não veio acompanhado de educação financeira. O acesso ao crédito aconteceu antes de as pessoas estarem preparadas”, diz.
Desenrola 1: o que mudou na prática
Focado em dívidas negativadas entre 2019 e 2022 e valor atualizado inferior a R$ 20 mil, o primeiro Desenrola (maio de 2023 a março de 2024) foi considerado um sucesso pelo Ministério da Fazenda.
✅ De acordo com o Censo Nacional do programa, cerca de 14,8 milhões de pessoas foram beneficiadas,
💰Ao todo, foram R$ 53,2 bilhões em acordos e descontos que passaram de 90% para pagamentos à vista.
💳 As renegociações — feitas majoritariamente pelo celular, lideradas por mulheres e pelo público de 35 a 44 anos — focaram em dívidas bancárias e de cartão de crédito.
📉 Entre o público elegível, a inadimplência caiu 8,7%, segundo o governo federal.
Na faixa 1, o programa atendia pessoas com renda de até 2 salários mínimos ou inscritas no Consultar dados do Cadastro Único (CadÚnico), com dívidas de pequeno valor. Na faixa 2, o programa atendia pessoas com renda de até R$ 20 mil por mês, com dívidas em bancos.
Empresas do setor também sentiram o reflexo positivo na época. Na Recovery, empresa especializada em recuperação de créditos, cerca de 500 mil dívidas bancárias foram quitadas no período. Foram 290,4 mil acordos firmados, beneficiando 278 mil clientes.
Helena Passos, head de dados e planejamento da empresa, destaca que o programa permitiu que milhões de brasileiros retomassem a vida financeira: “Observamos uma demanda reprimida de consumidores dispostos a regularizar suas dívidas quando encontram condições adequadas”.
Apesar do fôlego momentâneo, os indicadores gerais do país mostraram pouca melhora a longo prazo:
O endividamento geral medido pela pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) passou de 76,9%% em outubro de 2023 para 78,8% em março de 2024, enquanto a inadimplência geral recuou apenas 0,5 ponto percentual, indo de 29,7%% para 28,6%.
Na mesma linha, o volume de inadimplentes mensurado pela Serasa subiu de 71,95 milhões em outubro de 2023 para 72,54 milhões de pessoas ao fim da primeira edição, em maio de 2024, o que representa cerca de 590 mil pessoas a mais nessa situação, mesmo com uma queda de 1,20% em relação ao mês anterior.
Ou seja, após o encerramento do programa, grande parte da renda das famílias continuou sendo consumida por gastos básicos como alimentação, moradia e transporte, empurrando muitos brasileiros de volta para a inadimplência.

O que muda no Desenrola 2.0?
O ministro da Fazenda, Dário Durigan, na apresentação do Desenrola 2.0
Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
O Novo Desenrola Brasil prioriza famílias de menor renda, voltado a pessoas que ganham até cinco salários mínimos. Na nova fase, as instituições financeiras também passam a “desnegativar” dívidas de até R$ 100.
Para o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o relançamento do programa responde ao avanço da inadimplência após o fim da primeira edição. A estratégia atual é alinhar as renegociações a uma nova expectativa de ciclo de corte nas taxas de juros.
Em um primeiro balanço da nova edição do programa nesta quinta-feira (21), Durigan afirmou que, no eixo do programa para famílias, foram mais 449 mil dívidas quitadas à vista com um desconto médio de 85% sobre o valor devido. Do somatório de um R$ 1 bilhão, foram pagos R$ 154 milhões.
Além disso, o ministro afirmou que 685,5 mil dívidas foram refinanciadas, também com desconto de 85%. De R$ 9 bilhões, foi refinanciado R$ 1,3 bilhão em dívidas. (veja o balanço completo aqui)
Segundo ele, a primeira edição do Desenrola teve impacto, mas perdeu força com a alta dos juros. “A gente deu um primeiro tratamento, mas não foi suficiente porque os juros voltaram a crescer. Mas o ideal é que isso seja pontual, não recorrente. As pessoas têm que pagar suas dívidas”, declarou.
Analistas, porém, avaliam que o efeito do programa é limitado sem mudanças estruturais. Eles apontam a educação como um dos principais fatores de longo prazo para reduzir o endividamento.
“Esse talvez seja o principal gargalo, o mais difícil de implementar, mas o mais importante”, disse o economista Tiago Velloso, ao defender a ampliação da educação básica e financeira.
Ele também destaca o papel da renda no processo. Para ele, a criação de empregos não é suficiente sem aumento do rendimento médio e redução da informalidade.
“Programas como o Desenrola são importantes como incentivo, mas, isoladamente, não resolvem o problema. Sem mudanças estruturais, acabam apenas reinserindo as pessoas no sistema financeiro, o que pode levar a novos ciclos de endividamento”, afirmou.

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Câmara dos EUA aprova projeto para proteção de crianças nas redes sociais

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Jovem usa o celular
Hollie Adams/Reuters
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