Mato Grosso do Sul
Plano ABC+: entenda metas do agro para reduzir emissão de poluentes até 2030
Desde 2010, o Ministério da Agricultura tem um programa que visa incentivar produtores a adotarem práticas sustentáveis. Para especialistas, tecnologias e metas são boas e ambiciosas, mas governo precisa investir mais se quiser fazer transição para a agricultura de baixo carbono. No Brasil, depois do desmatamento, a agropecuária é a atividade que mais emite dióxido de carbono (CO2) à atmosfera, além de ser a principal emissora de metano, dois gases de efeito estufa que, em excesso, provocam aumento da temperatura global.
Por causa disso, tem sido cada vez maior a pressão de líderes globais para que o Brasil mude o seu modo de produzir. Mas o que o setor no país tem feito para isso?
Faz 11 anos que o Ministério da Agricultura tem um programa que visa incentivar produtores rurais a adotarem práticas sustentáveis, o chamado Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono, mais conhecido como Plano ABC.
Ambientalistas e institutos que acompanham o programa desde o início avaliam que as tecnologias previstas são eficientes em reduzir emissões de poluentes, mas ressaltam que, para fazer uma transição para a agricultura de baixo carbono, o governo terá que investir mais.
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A primeira fase do ABC vigorou entre 2010 e 2020 e incluiu técnicas como plantio direto; recuperação de pastagens degradadas; tratamento de dejetos animais; sistemas de integração; florestas plantadas e bioinsumos.
O estímulo para que agricultores adotem essas práticas é feito por meio do crédito público.
Outras tecnologias como sistemas irrigados e terminação intensiva na pecuária foram inclusas na segunda fase do plano, cujas metas foram anunciadas em 18 de outubro, às vésperas da 26ª Conferência das Nações Unidas (COP26) sobre as mudanças climáticas, que termina nesta sexta-feira (12) em Glasgow, na Escócia.
A nova etapa, chamada de ABC+, irá vigorar de 2021 a 2030. E, a cada dois anos, as metas e as tecnologias poderão ser revistas. Confira abaixo o que está previsto até agora:
CO2eq é uma medida que compara emissões de diferentes gases de efeito estufa baseado no potencial de aquecimento global.
Arte/g1
Ao longo da COP26, o governo federal tem apresentado o ABC+ como uma das principais contribuições do agro para o clima.
A meta é fazer com que a agropecuária reduza a emissão de carbono equivalente (CO2eq) em 1,1 bilhão de toneladas até 2030, a partir da adoção de práticas sustentáveis em mais de 72 milhões de hectares de terras agriculturáveis.
O CO2 equivalente é uma medida usada para comparar as emissões de diferentes gases de efeito estufa baseado no potencial de aquecimento global.
Leia também: 5 pontos centrais para o Brasil na COP26
Mais ambicioso
Especialistas ouvidos pelo g1 consideram a meta atual mais ambiciosa e avaliam que o programa está mais robusto e detalhado do que o anterior, com tecnologias mais avançadas.
Por outro lado, analisam que, para que as metas sejam atingidas, o governo terá que aumentar os recursos do programa. O pouco crédito direcionado para esta política é, inclusive, um dos principais gargalos do plano desde a sua criação, segundo especialistas ouvidos.
O ABC é financiado via Plano Safra, que é a principal fonte pública de custeio das atividades do campo. E, atualmente, os recursos reservados para a agricultura de baixo carbono representam apenas 2% (R$ 5 bilhões) do total do Safra 2021/22 (R$ 251,2 bilhões).
ABC entre 2010 e 2020
O plano ABC de 2010 a 2020 previa uma redução de 133,9 milhões de toneladas a 162,9 milhões de toneladas da emissão de CO2eq. Ao final do período, as iniciativas levaram a uma mitigação maior, de 170 milhões de toneladas, em mais de 50 milhões de hectares, segundo dados do Ministério da Agricultura.
Isso ocorreu porque os resultados de cinco dos seis objetivos do plano foram maiores do que o previsto. Por outro lado, a meta de plantar floresta ficou abaixo do esperado.
As metas e os resultados alcançados foram os seguintes:
Recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas: foram recuperados 26 milhões de hectares;
Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) em 4 milhões de hectares: foram alcançados 11 milhões de hectares;
Plantio Direto em 8 milhões de hectares: foi implementado em 12 milhões de hectares;
Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) em 5,5 milhões de hectares: atingiu 11 milhões de hectares;
Expansão do plantio de florestas em 3,0 milhões de hectares: entre 1,5 milhão e 2 milhões de hectares;
Tratamento de dejetos animais de 4,4 milhões de m³: atingiu 30 milhões de m³.
O que foi investido
Os investimentos previstos para alcançar as metas da primeira década do plano eram de R$ 197 bilhões. Desse total, o governo disponibilizou R$ 32 bilhões para a linha ABC do Plano Safra, dos quais os produtores contrataram R$ 21 bilhões, afirma o Ministério.
O órgão diz ainda que os produtores acabam contratando outras linhas de crédito, que não são específicas do ABC, para implementar ações de agricultura de baixo carbono em suas propriedades, mas não detalha qual tem sido o montante.
O Ministério afirma também que não tem dados do que foi investido pela iniciativa privada.
Dificuldade em monitorar metas
Sistema de ILPF em propriedade rural de Ipameri (GO)
Fabiano Bastos/Divulgação
Um dos problemas da primeira etapa do ABC foi a dificuldade em acompanhar o andamento do programa. Tanto é que foi somente em janeiro deste ano que o Ministério da Agricultura lançou um sistema oficial de monitoramento.
O Sistema Integrado de Informações (SIN-ABC) é hoje formado por uma comissão do ministério, pelo Banco Central do Brasil (BC) e pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que, dentre outras atribuições, faz o monitoramento via satélite.
“O plano foi monitorado, principalmente, do ponto de vista dos recursos que foram utilizados, mas saber quem aplicou, onde aplicou, como é que foi feito, isso não foi monitorado”, diz Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, que foi um dos idealizadores do ABC.
“Isso foi exaustivamente discutido ao longo da década passada, muitas reuniões, muitos trabalhos foram feitos mostrando a importância de se criar um monitoramento do plano”, reforça Assad, que também integra a equipe do Observatório do plano ABC, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Público e privado
A diretora-executiva do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Marina Piatto, que acompanha o plano desde o início, acrescenta que um monitoramento adequado poderia ter mostrado a porcentagem das metas que foram atingidas com recurso público e o quanto foi viabilizado pela iniciativa privada.
“É importante dizer que apenas uma parte das metas do plano ABC foi atingida com dinheiro público. Outra parte foi feita pela iniciativa privada, com o dinheiro próprio dos agricultores”, reforça Assad.
A diretora do Imaflora afirma ainda que um melhor monitoramento poderia ter verificado os diferentes níveis de qualidade das recuperações das pastagens degradadas, por exemplo.
Por outro lado, ela diz que o atual sistema de monitoramento deve melhorar o acompanhamento das ações no campo.
“Desta vez, o governo descreveu de forma mais detalhada como será o monitoramento e, agora, com os bancos de dados integrados do Banco Central, do Ministério e Embrapa, acredito que vamos conseguir saber se o plano está sendo executado ou não. As metas estão enormes, é bastante coisa para monitorar”, diz.
Mais recursos para o ABC
Técnica do plantio direto em uma lavoura de mandioca.
Reprodução/RPC
O ambientalista João Paulo Capobianco, que foi secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, durante o governo Lula, entre 2003 e 2008, diz que os recursos do ABC sempre representaram menos de 5% do Plano Safra, o que, para ele, indica que a agricultura de baixo carbono ainda não é uma prioridade do Brasil.
“O que está reservado para o ABC representa 2% do Plano Safra. Então isso indica que você está colocando 98% do dinheiro na agricultura tradicional. Isso não é uma forma de utilizar a política pública para se fazer a transição que tanto se deseja para a agricultura de baixo carbono”, diz.
“O crédito público é uma forma de conseguir induzir essas mudanças em larga escala. E as ações previstas no plano têm uma importância estratégica enorme. Quando ele foi lançado lá atrás foi muito comemorado por nós. Mas quando a gente vê o que de fato foi e o que está sendo investido, vemos que ele não é prioritário”, acrescenta Capobianco, que é vice presidente do Conselho Diretor do Instituto Democracia & Sustentabilidade (IDS).
O valor atual previsto para o ABC de R$ 5 bilhões é duas vezes maior do que o disponibilizado no Plano Safra passado. Mesmo assim, o governo terá que desembolsar mais para alcançar as metas de redução de emissão, diz Assad, da Embrapa.
“É preciso ampliar muito mais para atingir a meta de 72 milhões de hectares que irão adotar as práticas do ABC. Não será com R$ 5 bilhões que vamos conseguir, é preciso incentivar muito mais… esses 5 bilhões foram somente liberados agora, mas desde o início do ABC era pra ter sido liberado R$ 5 bilhões por ano”, afirma.
Durante uma coletiva de imprensa na COP26 na segunda (8), o secretário de Inovação, Desenvolvimento Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura, Fernando Camargo, prometeu aumentar os recursos para o plano.
“Tenho certeza de que o Plano Safra do ano que vem será absolutamente verde. Vai ter muito recurso para boas práticas agropecuárias e vamos nos organizar para fazer com que esse recurso não falte lá na ponta”, disse Camargo.
Já na avaliação do ambientalista Raoni Rajão, pesquisador do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais (LAGESA) da UFMG e membro do Observatório do Código Florestal, o ideal seria “fazer com que todo o crédito rural” pudesse ser concedido exigindo dos produtores “alguma prática de produção sustentável”.
Avanços no novo plano
Terminação intensiva consiste em dieta que intensifica a digestão e o crescimento do gado, fazendo com que ele fique pronto para o abate mais cedo
Divulgação
Por outro lado, Rajão avalia que houve avanços no novo Plano ABC. Segundo ele, a inclusão da tecnologia da terminação intensiva na pecuária é uma boa notícia.
Essa técnica consiste em fornecer ao gado uma dieta que intensifica a sua digestão e o seu crescimento, fazendo com que ele fique pronto para o abate mais cedo, reduzindo o seu ciclo de vida e, portanto, a emissão do gás metano, explica Marina, do Imaflora.
O metano é produzido justamente no processo digestivo dos bois. Após eles comerem o capim, degradam a matéria orgânica dentro do estômago e acabam gerando o gás, que é liberado na atmosfera pelo seu arroto.
“Com a técnica, portanto, é possível emitir menos metano por quilo de carne produzida”, diz Rajão.
Assistência técnica
Para Marina, do Imaflora, outro avanço foi o governo ter detalhado como vai funcionar a assistência técnica no campo. Esse serviço é feito, geralmente, por meio de unidades estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER).
A assistência é importante não só para que os agricultores consigam implementar as técnicas de baixo carbono, como também para montar projetos, que são exigidos na hora de contratar o crédito. A dificuldade de apresentar projetos foi, inclusive, outra dificuldade observada no plano anterior.
No ABC+, o governo prevê fortalecer a ATER e capacitar técnicos para atuarem em diferentes necessidades do ABC.
Sistemas agloflorestais
Já para Assad, outro ganho do plano foi ter fortalecido as práticas de sistemas agloflorestais, que consistem em produzir diferentes espécies agrícolas e florestais em uma mesma área.
“Quando se trata de sistemas agloflorestais, aí sim estamos falando em pequeno agricultor, em atingir mais de 4 milhões de agricultores brasileiros. E nós estamos falando em um sistema altamente eficiente em remoção de carbono. Isso é interessante. Vamos ver agora como vai funcionar e como é que o dinheiro vai chegar lá”, conclui Assad.
Mato Grosso do Sul
Centenária árvore de Florianópolis citada no hino do município não é originária do Brasil, diz pesquisa
Figueira da Praça XV é um dos principais cartões-postais da Capital de Santa Catarina. Ela foi identificada por pesquisadores da UFSC como sendo da espécie Ficus microcarpa. Árvore da Praça XV passa por processo de sequenciamento genético para descobrir origem
Tiago Ghizoni/NSC
A centenária figueira da Praça XV de Novembro, um dos cartões-postais de Florianópolis, localizada no Centro da cidade e citada inclusive no hino do município, não é originária do Brasil.
Por meio de sequenciamento genético, pesquisadores do laboratório de genética vegetal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) descobriram que a árvore, na verdade, é natural de uma região entre Ásia tropical e Austrália. Ela foi identificada como sendo da espécie Ficus microcarpa.
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O professor de biotecnologia Valdir Stefenon, que conduziu o estudo, afirma que a descoberta resgata parte da história da cidade.
“Entendo que essa pesquisa revela uma importante face da ciência, ainda pouco conhecida, que é sua ligação com a história e a cultura”, disse.
Tema de lendas contadas há gerações pelos moradores de Florianópolis, a figueira foi plantada por volta de 1870 na área que atualmente abriga a escadaria da Catedral, também no centro da cidade. Cerca de 20 anos depois, em 1891, ela foi transplantada para a praça e desde então serviu de sombra aos viajantes, além de palco para festividades.
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Árvore da Praça XV em Florianópolis
Tiago Ghizoni/NSC
Como foi feita a pesquisa
Para a descoberta, os pesquisadores coletaram partes pequenas da árvore quem contêm genomas de cloroplastos. A substância pode ser encontrada, por exemplo, nas folhas de plantas. A partir disso, o material foi colocado em um equipamento de alta tecnologia que identificou e mostrou o DNA da figueira da Praça XV.
Os pesquisadores, então, puderam comparar os dados da árvore da Capital com os de outras milhares espécies registradas em um banco de dados mundial.
“O DNA é sequenciado e cada uma das milhares de bases que o compõem são identificadas em fragmentos de tamanho variados. Esses fragmentos são, então, ordenados, como se estivéssemos montando um quebra-cabeças. Nesta etapa, o genoma nuclear, o genoma do cloroplasto e o genoma das mitocôndrias são separados em análises de bioinformática”, explica o professor.
Na planta, cada um desses genomas tem sua própria função:
Nuclear: principal deles. Encontrado em todas as suas células.
Cloroplasto: responsável pela cor verde e pela fotossíntese, processo pelo qual a planta produz seu próprio alimento. Está nas folhas.
Mitocôndria: estrutura da célula que transforma em energia o açúcar que a planta produz.
Sequenciamento genético da figueira
Caroline Borges/g1
Árvore será clonada
Além do trabalho de sequenciamento genético, os pesquisadores também desenvolvem uma pesquisa para clonagem da árvore. Usando filamentos mais novos da árvore, o processo vai ajudar a perpetuar as características genéticas da atual figueira.
Segundo Stefenon, os primeiros resultados são positivos:
“A clonagem de espécies arbóreas em laboratório é um processo complexo até o momento de se estabelecer os protocolos de trabalho. Por enquanto, conseguimos estabelecer dois clones no laboratório, os quais ainda estão pequenos”, revela.
Árvore da Praça 15 em Florianópolis
Tiago Ghizoni
Ações que envolvem diagnósticos fitossanitário e nutrição, por exemplo, também estão sendo realizadas para preservar a figueira. A previsão é que elas sejam concluídas no primeiro semestre deste ano.
A figueira, segundo o professor, tende a sofrer com a poluição dos carros e a menor interação com outras plantas e animais, por estar em um ambiente bastante urbanizado.
“Apesar disso, ela está bem e, com os tratamentos que foram realizados, ela tende a permanecer bela e imponente por muitos anos na Praça XV”, avalia.
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Mato Grosso do Sul
Marco temporal sobre terras indígenas: entenda o que dizia a tese derrubada pelo STF
Julgamento começou em 2021, após recurso da Funai, e foi retomado em 21 de setembro de 2023. Dispositivo previa que indígenas poderiam reivindicar somente terras ocupadas por eles antes da Constituição de 1988, desconsiderando grupos já expulsos. Indígenas comemoram derrubada do marco temporal em Brasília
O Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou nesta quarta-feira (20), por 9 votos a 2, a aplicação da tese do marco temporal na demarcação de terras indígenas. A discussão colocou em lados opostos ruralistas e povos originários, que saíram vitoriosos na disputa.
O dispositivo previa que só poderiam ser demarcadas terras que já estavam ocupadas por indígenas em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. Esse entendimento deriva de uma interpretação literal do artigo 231 da Constituição, que diz:
“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.
A análise no STF começou em 26 de agosto de 2021, a partir de um recurso apresentado Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) contra o marco temporal. Nesta quarta, a pauta voltou ao plenário da Corte. O voto do ministro Luiz Fux consolidou a corrente segundo a qual o dispositivo fere a Constituição.
A demarcação de terras indígenas é um direito garantido pela Constituição Federal de 1988, que estabelece aos indígenas o chamado “direito originário” sobre as suas terras ancestrais. Isso quer dizer que eles são considerados, por lei, os primeiros e naturais donos do território, sendo obrigação da União demarcar todas as terras inicialmente ocupadas por esses povos.
👉 Esta reportagem abordará os seguintes assuntos:
Quem defendia e quem era contra o marco temporal
O impacto que teria para indígenas
Por que o caso foi parar no STF
Como votaram os ministros
Marco temporal no Congresso
STF retoma julgamento sobre marco temporal das terras indígenas
Carlos Moura/SCO/STF
1. Quem era contra e quem defendia a tese
❌ Indígenas eram contra o marco temporal. Eles afirmavam que a posse histórica de uma terra não necessariamente está vinculada ao fato de um povo originário ter ocupado determinada região antes de 5 de outubro de 1988. Segundo esse argumento, muitas comunidades são nômades, e outras tantas foram retiradas de suas terras pela ditadura militar.
❌ Para a organização não governamental (ONU) Instituto Socioambiental (ISA), a tese do marco temporal vinha sendo utilizada pelo governo Bolsonaro para travar demarcações e foi incluída em propostas legislativas anti-indígenas. Defensores da causa dos povos originários temiam que demarcações de terras já feitas fossem revogadas caso o STF validasse o dispositivo.
✔️Já proprietários rurais argumentavam que havia necessidade de se garantir segurança jurídica com relação ao tema e apontavam o risco de desapropriações caso a tese fosse derrubada.
✔️ Assim como os ruralistas, o ex-presidente Jair Bolsonaro era favorável à tese do marco temporal.
2. O impacto que poderia ter para indígenas
Análise: Os impactos socioambientais do Marco Temporal
Se a tese do marco temporal fosse aceita pelo STF, indígenas poderiam ser expulsos de terras ocupadas por eles, caso não comprovassem que estavam lá na data da promulgação da Constituição de 1988 e sem que fossem considerados os povos que já foram expulsos ou forçados a sair de seus locais de origem. Processos de demarcação de terras indígenas históricos, que se arrastavam por anos, poderiam ser suspensos.
O marco temporal também facilitaria que áreas que não deveriam ter titularidade, por pertencerem aos indígenas, protegendo física e culturalmente povos originários, pudessem ser privatizadas e comercializadas. A hipótese da comercialização respondia ao interesse do setor ruralista.
3. Por que o caso foi parar no STF
Veja, abaixo, a cronologia do julgamento:
Em 2013, o TRF-4 aceitou a tese do marco temporal ao conceder ao Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina a reintegração de posse de uma área que é parte da Reserva Biológica do Sassafrás, onde fica a Terra Indígena Ibirama LaKlãnõ. Na região, vivem os povos xokleng, guarani e kaingang.
A decisão do TRF-4 mantinha entendimento de 2009, de outra decisão da Justiça Federal em Santa Catarina.
Em 26 de agosto de 2021, o STF iniciou o julgamento de um recurso da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que questionou a decisão do TRF-4. E o que fosse decidido pelos ministros da Corte criaria um entendimento que poderia ser aplicado em situações semelhantes em todo o Brasil.
Em 20 de setembro de 2023, o STF retomou o julgamento e derrubou a tese do marco temporal.
Após a decisão da Corte, o líder de povo Xokleng, Tucun Gakran comemorou:
“É a maior vitória dos indígenas desde quando o não indígena tomou as terras dos povos indígenas”
4. Como votaram os ministros
Votaram contra o marco temporal:
Edson Fachin (relator)
Alexandre de Moraes
Cristiano Zanin
Luís Roberto Barroso
Dias Toffoli
Luiz Fux
Cármen Lúcia
Gilmar Mendes
Rosa Weber
Dois ministros consideraram que o marco temporal deveria ser considerado no momento da demarcação de terras indígenas:
Nunes Marques
André Mendonça
5. Marco temporal no Congresso
Além do processo que corria no STF, um projeto entrou em tramitação no Congresso para tentar transformar a tese do marco temporal em lei. Trata-se do PL nº 490/2007, que determina que devem ter direito às terras consideradas ancestrais somente os povos que as estivessem ocupando no dia da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988.
A proposta do legislativo altera o “Estatuto do Índio” para permitir, segundo o texto, um “contrato de cooperação entre índios e não índios”, para que estes possam realizar atividades econômicas em terras indígenas. Além disso, a proposta prevê que não indígenas tenham contato com povos isolados “para intermediar ação estatal de utilidade pública”.
Veja, abaixo, a cronologia do PL:
Em 2007, o PL foi proposto na Câmara dos Deputados.
Em 2009, o texto foi rejeitado na Comissão de Direitos Humanos da Câmara.
Em 2018, o PL acabou arquivado.
No entanto, ainda em 2018, a proposta foi ressuscitada durante a campanha eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro, que prometeu acabar com “reserva indígena no Brasil”.
Em 29 de junho de 2021, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, presidida pela deputada Bia Kicis (PSL-DF), entendeu que o texto do PL era constitucional.
Em 30 de maio de 2023, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto, por 283 votos a 155, com apoio público do presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Houve uma abstenção. O texto, então, foi para o Senado.
Em 20 de setembro de 2023, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado adiou a votação do PL. O adiamento ocorreu após a leitura do parecer favorável ao projeto, apresentado pelo senador Marcos Rogério (PL-RO), e atendeu a um pedido de vista (mais tempo para análise) coletivo de senadores da base aliada ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Governistas ainda tentaram postergar a análise com uma tentativa de convocar audiência pública para debater o tema, mas a base acabou derrotada por 15 votos a 8. Com isso, a votação do projeto está prevista para 27 de setembro de 2023, em data posterior à última atualização desta reportagem.
Mato Grosso do Sul
Suíça fará doações ao Fundo Amazônia, anuncia representante do país europeu
Conselheiro federal da Confederação Suíça, Guy Parmelin, deu a declaração durante um fórum sobre investimentos e sustentabilidade, realizado no Itamaraty. Ele não citou valores. Guy Parmelin, conselheiro da Suíça, durante declaração à imprensa, no Itamaraty
Reprodução/TV Globo
O conselheiro federal da Confederação Suíça, Guy Parmelin, afirmou nesta quarta-feira (5) que a Suíça passará a fazer doações para o Fundo Amazônia. Ele não citou valores dos aportes.
Parmelin fez o anúncio ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, na sede do Ministério das Relações Exteriores. Os dois participaram do Fórum Brasil-Suíça de Investimentos e Inovação em Infraestrutura e Sustentabilidade.
“A partir de hoje, aprimoraremos nosso engajamento. Tenho o prazer de anunciar que a Suíça vai contribuir para o Fundo Amazônia. A primeira contribuição será nas próximas semanas. Queremos lançar essa parceira com o Brasil e outros países”, afirmou o representante do país europeu.
Criado em 2008, o Fundo Amazônia recebe doações majoritariamente da Noruega e também da Alemanha. Em 2019, primeiro ano da gestão Jair Bolsonaro, os países suspenderam os repasses e congelaram os valores para novos projetos, mantendo somente os pagamentos já programados.
Além de Suíça, Estados Unidos e Reino Unido já anunciaram que farão aportes ao fundo.
Em declaração à imprensa, Alckmin agradeceu pela iniciativa dos suíços. “Muito importante para a recuperação da nossa Floresta Amazônica, [gostaria de] destacar a boa parceria econômica e as oportunidades de investimentos”, afirmou o vice-presidente.
Alckmin disse também que o Brasil tem compromisso com o desenvolvimento sustentável e o combate ao desmatamento ilegal.
“As Forças Armadas, inclusive, estão presentes na Amazônia para retirar garimpeiros ilegais, invasores de áreas de preservação. Enfim, um trabalho grande na região”, declarou o vice-presidente.
Na mesma linha de Alckmin, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que o governo brasileiro lançará ainda em julho um novo plano de desenvolvimento para o país que terá como “pilar central” a transição energética.
“O Brasil tem desafios, problemas a superar, mas, ao mesmo tempo que temos desafios, esses desafios se apresentam como enormes oportunidades de investimento e parcerias”, afirmou o ministro.
Acordo Mercosul-EFTA
Durante os pronunciamentos desta quarta-feira, Alckmin e Parmelin citaram o acordo comercial negociado entre o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e a Associação Europeia de Livre Comércio, da qual a Suíça faz parte.
Negociado desde 2017, o acordo com o grupo foi concluído em 2019, após dez rodadas de negociações. Ainda há, contudo, algumas pendências relativas a questões técnicas e, por isso, ainda não foi finalizado.
“Temos todo interesse em ampliar a abertura comercial e a possibilidade de investimentos recíprocos com a União Europeia e a EFTA. Com a União Europeia, o governo já está mais adiantado e estamos confiantes que chegaremos a bom termo. Com a EFTA, poderemos ter complementariedade econômica de investimentos que vão gerar emprego e renda”, disse Alckmin no fórum.
“O acordo Mercosul-EFTA é um instrumento-chave para reforçar ainda mais o potencial de cooperação entre nossos países”, acrescentou Guy Parmelin.
De acordo com a página oficial do Mercosul, o comércio entre o bloco e os países da EFTA gira em torno de US$ 7 bilhões anuais.
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