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Ciência e Saúde

‘Sou psicopata’: mulheres contam como é viver com o distúrbio

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Psicopatia é uma condição que especialistas tratam como mal compreendida. A psicopatia é geralmente é associada aos homens, particularmente aos criminosos, e é muito pouco estudada nas mulheres
SOMSARA RIELLY
A psicopatia é uma condição que condena e fascina muitas pessoas, mas o estigma profundamente arraigado em volta dela indica que o distúrbio ainda é mal compreendido — especialmente quando afeta as mulheres.
Victoria sabia que seu namorado tinha uma esposa, mas, depois de alguns anos, ela começou a suspeitar que ele tivesse outras amantes.
Ela não tinha provas, mas a linguagem corporal do namorado o denunciava, segundo ela. Suas histórias não faziam sentido. Seu rosto parecia diferente quando ele mentia.
“Acontece que tenho excelente memória quando se trata de conversas”, ela conta. “Ele não sabia mentir bem. Não sei como a esposa dele nunca o desmascarou.”
Diversas formas de punição surgiam na mente de Victoria, até que ela se decidiu por uma delas. Levaria algum tempo e ela precisaria agir como se não soubesse de nada. Foi assim que, por vários meses, Victoria continuou a vê-lo, mas enviava fotos do seu namorado nu para a esposa dele.
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Perturbado, ele procurou Victoria, se perguntando quem poderia estar enviando essas fotos. Sua esposa estava arrasada. Ele confessou a Victoria que, de fato, estava dormindo com outras mulheres. E não suspeitou que era Victoria quem estava enviando as fotos.
Quando Victoria se cansou de tudo e quis terminar o relacionamento, ela enviou à esposa do namorado uma coleção final de fotografias. Na última imagem, a própria Victoria aparecia junto ao homem. Com essa revelação explosiva, Victoria saiu da vida deles para sempre.
Quando Victoria contava esta história para as pessoas, sua petulância as espantava.
“Elas me perguntavam ‘por que você fez isso com a esposa dele? O que a esposa dele fez para merecer isso? O que ela fez para magoar você?'”, ela conta. “E eu pensava, ‘bem, a vida é injusta’.”
Ela faz uma pausa.
“Acho que este é um bom exemplo de uma característica psicopata extrema que eu costumava ter. Indiferença.”
Mulheres com psicopatia costumam exibir menor tendência à violência que os homens e mais manipulação interpessoal
SOMSARA RIELLY
A definição da psicopatia
A psicopatia não é um diagnóstico oficial de saúde mental e não está presente na mais recente edição do Manual Estatístico e de Diagnóstico de Distúrbios Mentais. Ela está agrupada sob a classificação mais ampla de distúrbio da personalidade antissocial, embora a psicopatia seja amplamente usada em ambientes clínicos em todo o mundo.
Ela é entendida como sendo um distúrbio neuropsiquiátrico, em que uma pessoa exibe níveis anormalmente baixos de empatia ou remorso, muitas vezes resultando em comportamento antissocial e, às vezes, criminoso.
O termo foi usado por médicos europeus e americanos no início dos anos 1900 e tornou-se comum em 1941, após a publicação do livro The Mask of Sanity (“A máscara da sanidade”, em tradução livre), do psiquiatra norte-americano Hervey M. Cleckley.
“Os principais acadêmicos do mundo vêm debatendo a definição da psicopatia”, segundo a psicóloga e neurocientista Abigail Marsh, da Universidade de Georgetown em Washington D.C., nos Estados Unidos. “Você terá explicações muito diferentes da psicopatia, se falar com um psicólogo forense ou criminologista.”
Marsh afirma que os psicólogos criminalistas tendem a classificar as pessoas como psicopatas somente se exibirem comportamento extremo e violento. Mas, para ela, a condição se apresenta na forma de espectro com outros comportamentos menos dramáticos, que podem variar de uma pessoa para outra.
Os psicólogos e psiquiatras, de forma geral, concordam que uma ou duas a cada 100 pessoas, na população em geral, atendem ao critério de psicopatia. Mas Marsh afirma que até 30% das pessoas exibem algum grau de características psicopatas na população em geral.
Para as pessoas com psicopatia, isso pode significar que elas têm dificuldades para manter amizades próximas e se colocam em situações de risco, mas a condição também é prejudicial para as pessoas à sua volta.
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“Muitas vezes, ter por perto uma pessoa insensível ou manipuladora é devastador e cansativo para as pessoas que vivem com alguém com psicopatia extrema”, afirma Marsh.
Ela afirma que a maioria dos estudos referentes às pessoas com psicopatia tem sido conduzida com criminosos. Alguns desses estudos indicam que os psicopatas — ou as pessoas que exibem características psicopatas— representam um número desproporcional de pessoas na prisão, embora existam controvérsias sobre sua real incidência.
De forma geral, as pesquisas indicam que a incidência de psicopatia é maior entre os criminosos homens (representando talvez 15 a 25% dos prisioneiros) do que entre as mulheres (10 a 12%).
Mas este ainda é um campo pouco estudado na população em geral e ainda menos pesquisas são realizadas com mulheres.
As mulheres com psicopatia
Embora diversos estudos indiquem que a incidência da psicopatia é maior entre os homens do que entre as mulheres, Marsh argumenta que isso pode se dever, em primeiro lugar, à forma em que os exames foram idealizados.
“As escalas iniciais de psicopatia foram principalmente desenvolvidas e testadas na população prisional de homens na Columbia Britânica [no Canadá] por Bob Hare”, afirma ela.
O psicólogo canadense Robert Hare desenvolveu a Lista de Controle da Psicopatia (agora chamada PCL-R) nos anos 1970 e uma versão revisada é frequentemente considerada o padrão-ouro global para o teste de características psicopatas. Ela é agora a ferramenta de diagnóstico validada e mais frequentemente empregada para determinar a psicopatia.
A PCL-R mede a escala de desconexão emocional que alguém pode ter, tal como sua disposição de manipular alguém até um resultado desejado, independentemente das consequências, bem como seu comportamento antissocial, como escolhas agressivas ou impulsivas que podem ser violentas ou envolver o abandono abrupto das responsabilidades.
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“Adaptações dessa escala são utilizadas hoje em dia em amostras não institucionalizadas, incluindo mulheres e crianças em diversos países, mas permanece aberta a questão de se você usaria essas mesmas questões para começar se fosse lidar com mulheres não criminosas”, afirma Marsh.
Uma análise dos pesquisadores em 2005 também comparou características centrais de mulheres e homens com psicopatia. Eles indicaram que as mulheres, muitas vezes, exibiam características como impulsividade debilitadora (como falta de planejamento), falsidade nos relacionamentos interpessoais e agressões verbais.
Por outro lado, os pesquisadores concordaram que a psicopatia nos homens tende a se manifestar com violência e agressões físicas. Mas, na época, elas indicaram que não haviam sido realizadas pesquisas suficientes sobre o motivo para isso. E, 17 anos depois, não houve grandes mudanças.
A estudante de PhD de psicologia da Universidade de Madri, na Espanha, Ana Sanz García e seus colegas realizaram uma análise mais recente, em 2021, de estudos de pesquisa publicados, que avaliaram mais de 11 mil adultos para determinar psicopatia. Ela concorda que são necessários mais estudos concentrados nas mulheres e em pessoas não criminosas com psicopatia.
Sanz García afirmou à BBC que os estudos até hoje demonstram que as mulheres com psicopatia exibem menos propensão à violência e ao crime do que os homens, mas existem mais exemplos de manipulação interpessoal.
“Seria interessante estudar os fatores que explicam por que, entre as mulheres com alto grau de psicopatia, existe menor probabilidade de cometer atos criminosos e antissociais do que entre os homens”, afirma ela. “Se esses fatores forem descobertos, será possível criar um programa para evitar que homens e mulheres com alto grau de psicopatia cometam esses atos antissociais e criminosos.”
Acredita-se que a genética e o ambiente de criação de uma pessoa influenciem a psicopatia.
SOMSARA RIELLY
Também neste caso, não há pesquisas suficientes para determinar os motivos, mas um estudo recente na França indica uma possível resposta: a frieza e a falta de emoção parecem desempenhar um papel mais central na psicopatia feminina do que entre os homens. E as mulheres também exibem menos comportamentos violentos e antagonistas que na psicopatia masculina.
Manipulação como entretenimento
Victoria afirma que o seu comportamento manipulador começou a surgir como forma de entretenimento próprio.
Ela nasceu na Malásia, em uma família de classe média. O alcoolismo do seu pai e a falta de responsabilidade pessoal pelas consequências da bebida tornaram seu lar infeliz.
Ela teve sucesso nos estudos, mas se sentia frequentemente aborrecida. Para se divertir, ela gostava de passar adiante informações confidenciais que recebia das pessoas, segredos que ela havia jurado guardar. Quem odiava quem. Quem gostava de quem.
As tensões entre os alunos no ensino médio, muitas vezes, eram causadas por ela. Victoria sabia manipular os outros para que assumissem a responsabilidade pelos erros que ela cometeu e sabia o que dizer para se livrar de problemas. Ela chegou a convencer uma professora de que tinha atirado um giz nela apenas por pressão dos colegas.
“Era o que ela queria ouvir”, ela conta. “Ela queria acreditar que aquela menina inteligente não era ruim, apenas facilmente influenciável.”
Mais recentemente, Victoria estava obtendo ajuda para controlar seus impulsos. Mas ela também encontrou apoio, embora possa parecer estranho, de pessoas como ela.
Pergunto a ela sobre diversos vídeos recentes conhecidos como “o desafio do psicopata”, que viralizaram no TikTok, somando mais de 20 milhões de visualizações. Eles discutem como os espectadores podem “identificar um psicopata”.
A hashtag “psicopata” é uma das mais populares naquela rede social, com mais de dois bilhões de visualizações. Ela é usada para marcar diversos assuntos, incluindo imagens de pessoas com psicopatia em julgamentos, e também é usada como insulto para maus comportamentos.
O que fica claro é que pessoas acham o tema da psicopatia e seus portadores, ao mesmo tempo, fascinantes e repulsivos.
Victoria não acha esses vídeos ofensivos.
“Parte de ser psicopata é não se importar com o que as pessoas pensam, de forma que isso não me aborrece”, afirma ela. “Mas mostra a pouca compreensão das pessoas sobre o espectro completo da condição.”
A exceção, para ela, são os vídeos que discutem se as pessoas com psicopatia são mais propensas a maltratar os animais. “Muitos de nós preferimos animais aos seres humanos”, afirma ela, secamente.
Sociopata ou psicopata?
O que Victoria indica como “nós” é uma comunidade online de mulheres como ela. Ela está concentrada principalmente no blog da escritora M. E. Thomas, talvez uma das mais conhecidas mulheres com psicopatia. A avaliação de psicopatia de Thomas, realizada pelo psicólogo forense John Edens, da Universidade A&M do Texas, nos Estados Unidos, foi de 99%.
O blog de Thomas, intitulado Sociopath World, detalha como é a vida com psicopatia. Ela afirma que usava a palavra sociopata em vez de psicopata porque achava que era um termo que seria compreendido por mais pessoas.
Sociopatia não é um termo clínico amplamente aceito, e psicólogos como Abigail Marsh afirmam que, às vezes, ele é usado por indivíduos que podem sentir o estigma relacionado à palavra “psicopata”.
Um agente literário descobriu o blog de Thomas e ofereceu um contrato para um livro. Confessions of a Sociopath: A Life Spent Hiding in Plain Sight (“Confissões de uma sociopata: uma vida passada escondendo-se à vista de todos”, em tradução livre) foi publicado em 2012 e traduzido para mais de 10 idiomas. Um filme baseado no livro, estrelado pela atriz norte-americana Lisa Edelstein, está atualmente em produção.
“Vejo-me como uma fórmula, não como uma pessoa”, afirma Thomas. “É como ser uma planilha do Excel, onde examino o que faço e digo calculando o possível resultado.”
Um exemplo pode ser dizer a alguém que ela o ama quando quer algo dele, afirma Thomas. Ela conta que já fez isso algumas vezes e gerou o rompimento de vários relacionamentos.
Um estudo de 2012 da Universidade de Zurique, na Suíça, também descobriu que a risada é frequentemente usada pelas pessoas psicopatas como instrumento intencionalmente manipulador. Ela as ajuda, por exemplo, a controlar a conversa. Ou, às vezes, a rir da pessoa com quem estão falando – e não com ela.
Thomas afirma que seu agente a instrui a não usar a palavra “manipuladora” quando falar sobre si mesma, mas sim dizer que sabia como influenciar as pessoas desde a infância. Mas “manipuladora” é a palavra que ela usa. Ela afirma que essa qualidade a ajudou a tornar-se uma boa advogada, que ainda é a sua profissão.
Quando ela fala, as pessoas não conseguem identificar seu sotaque. Elas acham que Thomas pode ser de Israel ou da Europa oriental, embora ela tenha vivido toda a sua vida na Califórnia.
“Você tem sotaque quando se socializa para ter identidade. Eu nunca tive identidade”, ela conta. “Tenho um sentido muito fraco de mim mesma.”
Possíveis benefícios?
No seu blog, M.E. Thomas compartilha seus pensamentos diários e entrevista outras pessoas que vivem com características psicopatas. Ela conta que muitos dos seus leitores encontram refúgio nas suas postagens e vídeos, pois é um lugar onde elas reconhecem seus próprios padrões e compartilham experiências sem que sejam julgadas por isso.
Observar a psicopatia como um espectro pode significar que as características que a definem são muito mais comuns entre a população em geral do que o indicado pela maioria dos estudos
SOMSARA RIELLY
Uma de suas leitoras é Alice, uma mulher alemã de 27 anos de idade. Ela afirma que é frustrante ler artigos ou assistir a ilustrações de pessoas com psicopatia como indivíduos maldosos que precisam ser evitados. “Nós existimos em uma escala, como todos os demais”, afirma ela.
Como Thomas, Alice é agradável à primeira vista, talvez porque ela sorri muito. Ela admite desde o início que está imitando o que ela sabe ser socialmente adequado.
Alice vem fazendo isso por toda a vida. Quando sua avó morreu, ela observou o luto da sua irmã e copiou seu comportamento.
Ela afirma que também finge ser sarcástica, pois isso permite que ela diga impunemente o que tem na mente, sem causar alarme.
Alice aprendeu isso já aos 12 anos de idade, quando estava de férias em um navio e se perguntou em voz alta como seria observar as pessoas afundarem em caso de acidente. A reação dos seus pais e amigos a ensinou que era importante enquadrar esse tipo de pensamento como humor ácido e não como um pensamento obscuro.
Embora Thomas descreva sua característica psicopata dominante como manipulação e Victoria afirme que sua marca é a indiferença, Alice aponta sua falta de empatia como sua característica mais evidente.
“Não tenho nenhuma empatia emocional, mas tenho muita empatia cognitiva”, afirma ela, com sorriso inabalável. “Se alguém se machucar, por exemplo, ferir o joelho ou quebrar um braço, posso não sentir nada por eles emocionalmente, mas sei que preciso conseguir ajuda e assim o faço.”
E isso, segundo ela, faz com que ela seja uma boa pessoa para ter por perto em situações de emergência.
“As pessoas me contam seus problemas e não fico ofuscada pelas emoções, de forma que aquilo não me afeta e posso ouvi-las e oferecer conselhos racionais”, ela conta. “Outras pessoas podem querer se distanciar porque aquilo aciona suas próprias emoções, mas isso não acontece comigo.”
Alice não é a única que acredita que suas características podem ser benéficas para a sociedade. Os traços “positivos” da psicopatia são explorados pelo psicólogo Kevin Dutton, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, no seu livro A Sabedoria dos Psicopatas: O que Santos, Espiões e Serial Killers Podem nos Ensinar sobre o Sucesso (Ed. Record, 2018).
Em 2011, Dutton conduziu uma pesquisa no Reino Unido intitulada “A Grande Pesquisa sobre os Psicopatas Britânicos”. As profissões onde as pessoas mais exibiam características psicopatas foram os altos executivos, jornalistas, policiais, militares, cirurgiões e advogados.
Dutton argumenta que certas características de personalidade do espectro psicopata – incluindo a frieza sob pressão e reações menos empáticas às interações interpessoais – podem ajudar as pessoas a realizar seu trabalho sem que sejam, como diria Alice, “ofuscadas”.
É preciso apoio e desmistificação
“Todos conhecemos alguém com características psicopatas”, afirma Marsh, que é uma das fundadoras da organização Psycopathy Is. Ela oferece uma das poucas plataformas online que fornecem apoio para psicopatas e pessoas próximas.
Marsh afirma que seu objetivo é desmistificar a psicopatia e fornecer ferramentas de seleção para que as próprias pessoas possam se avaliar, com instrumentos confiáveis, e conseguir boas informações sobre o que fazer em seguida.
“A psicopatia não é uma categoria, é um espectro”, afirma ela. “Ela é distribuída entre a população em graus variáveis. Algumas pessoas causam destruição contínua e outras precisam apenas administrar os seus sintomas.”
“Quando não discutimos isso abertamente, as pessoas se lembram de Ted Bundy e Hannibal Lecter [assassinos em série – o primeiro, real, e o segundo, da ficção]”, afirma ele. “E então vemos tendências do TikTok preenchendo a lacuna de informações de especialistas.”
Muitos especialistas, incluindo Marsh, acreditam que está na hora de desfazer os mitos e o estigma que envolvem a psicopatia.
As causas subjacentes da psicopatia ainda são mal compreendidas, embora cada vez mais pesquisas de imagens neurológicas venham ajudando a indicar algumas das possíveis anormalidades do cérebro que podem explicar os sintomas.
Pesquisas indicam, por exemplo, que homens com psicopatia possuem reação reduzida em regiões do cérebro relacionadas ao processamento do medo e que existem indicações de que efeitos similares podem ser encontrados nas mulheres.
Alguns pesquisadores também indicaram diferenças no circuito neural das amígdalas cerebelosas, uma estrutura importante do cérebro responsável pelo processamento das emoções. Mas, como a maior parte das pesquisas sobre psicopatia, essas conclusões estão longe de ser consistentes e ainda precisam ser mais estudadas.
A genética e o ambiente das pessoas também são peças importantes do quebra-cabeça. Mas Marsh acredita que conseguir essas respostas exigirá que a sociedade como um todo desenvolva uma relação mais madura com a psicopatia.
“Eu realmente admiro o que a comunidade de pesquisa sobre o autismo fez nos anos 1990”, afirma ela. “Eles decidiram se libertar do estigma, dizendo às pessoas a verdade sobre a condição. Que é um distúrbio de espectro.”
“Nós, como pesquisadores de psicopatia, precisamos definir uma abordagem para realmente nos atirarmos ao desenvolvimento de melhores intervenções que possam ajudar as pessoas com psicopatia a viver vidas produtivas e prósperas”, defende Marsh.
Mas ela acrescenta que, até que isso aconteça, estamos fracassando com as pessoas com psicopatia.
“Isso significa que as pessoas – pessoas com o distúrbio, seus amigos e sua família – não estão conseguindo o apoio de que precisam”, afirma ela. “E isso prejudica a todos.”
Victoria, Alice e M. E. Thomas usam a meditação, terapia psicológica e apoio de colegas da sua comunidade online para ajudar a controlar o seu distúrbio.
“Não estar nas sombras ajuda”, afirma Thomas. “Mas ainda existe um estigma para a palavra ‘psicopata’. Ainda há muito trabalho a fazer e é preciso ter muitas conversas mais abertas. A realidade é que nós existimos.”
Características da psicopatia
Segundo o site PsychopathyIs.org (que teve como uma de suas criadoras a psicóloga e neurocientista Abigail Marsh, da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos), estas são algumas das principais características que se manifestam em casos extremos de psicopatia:
Abordagem egoísta e indiferente aos relacionamentos interpessoais.
Falta de empatia sobre o sofrimento ou angústias dos demais.
Falta de demonstração de remorso depois de machucar os outros ou desobedecer regras.
Pouco sentido de identidade consigo próprio.
Manipulação das pessoas para conseguir as coisas.
Dedicação a atividades perigosas ou arriscadas.
Charme superficial.
* Megha Mohan é jornalista especializada em gênero e identidade da BBC.
Essa reportagem foi originalmente publicada em http://news.bbc.co.uk/1/hi/63732969.stm

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Ciência e Saúde

‘Ciência Aberta’: centro que abriga o Sirius recebe público para apresentar curiosidades e atrações da ciência

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Evento destinado às crianças e adultos que oferece contato direto com cientistas começa às 9h neste sábado (10). Estão programadas 86 atrações interativas; confira a relação. Sirius, laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, instalado no CNPEM, em Campinas (SP)
Nelson Kon
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que abriga o superlaboratório Sirius, em Campinas (SP), promove neste sábado (10), a partir das 9h, a 6ª edição do “Ciência Aberta”, evento gratuito direcionado às crianças e adultos que oferece contato direto entre público e cientistas.
Para entrada é solicitada a contribuição voluntária de 1 kg de alimento não perecível. O último horário permito para ingresso de visitantes é 15h. Em 2023, o Ciência Aberta recebeu 16 mil pessoas.
Estão programadas 86 atrações interativas, que incluem experiências práticas nos laboratórios, demonstrações tecnológicas, além de palestras e oficinas. O CNPEM também oferece praça de alimentação e estacionamento gratuito.
CLIQUE AQUI E VEJA TODAS AS ATIVIDADES DO CIÊNCIA ABERTA 2024
Além de atividades no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que abriga o Sirius, acelerador de partículas brasileiro (entenda mais sobre ele abaixo), o evento apresenta atrações nas áreas de biociências, nanotecnologia e biorrenováveis.
“O Ciência Aberta é mais do que uma apresentação das atividades do CNPEM ao público. O evento é uma oportunidade de reconhecermos o potencial do Brasil em fazer ciência e em promover desenvolvimento e inovação mundialmente competitivos. Mais de mil colaboradores do Centro estarão dedicados ao Ciência Aberta, mostrando como temos capacidade de criar soluções criativas e disruptivas para os desafios da atualidade”, destaca Antonio José Roque da Silva, diretor-geral do CNPEM.
Nesta sexta (9), escolas e universidades que fizeram inscrição prévia poderão vivenciar as atrações de forma exclusiva. O CNPEM recebeu 15 mil inscrições.
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Centro que abriga Sirius e Einstein se unem para avanços nos estudos de novos vírus e doenças genéticas
“Ciência Aberta” abre as portas do CNPEM ao público
Arquivo CNPEM
O que é o Sirius?
Principal projeto científico brasileiro, o Sirius é um laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, que atua como uma espécie de “raio X superpotente” que analisa diversos tipos de materiais em escalas de átomos e moléculas. São apenas três no mundo com essa tecnologia.
🔔 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp
Para observar as estruturas, os cientistas aceleram os elétrons quase na velocidade da luz, fazendo com que percorram o túnel de 500 metros de comprimento 600 mil vezes por segundo. Depois, os elétrons são desviados para uma das estações de pesquisa, ou linhas de luz, para os experimentos.
Esse desvio é realizado com a ajuda de ímãs superpotentes, e eles são responsáveis por gerar a luz síncrotron. Apesar de extremamente brilhante, ela é invisível a olho nu. Segundo os cientistas, o feixe é 30 vezes mais fino que o diâmetro de um fio de cabelo.
Ciência Aberta – CNPEM
Dias: Sábado, 10 de agosto
Local: Rua Giuseppe Máximo Scolfaro, 10.000, Polo II de Alta Tecnologia de Campinas, Campinas
Horário: a partir das 9h, e com último horário de admissão às 15h.
VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região
Veja mais notícias da região no g1 Campinas.

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Ciência e Saúde

Estudo que durou 9 anos liga atividade física ao fortalecimento de propósito e à vontade de viver

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Investigação de pesquisadores da Universidade de Harvard, nos EUA, e da Universidade de Warwick, no Reino Unido, contou com a participação de 18 mil homens e mulheres a partir dos 50 anos. Silvania Dutra (de boné) começou a correr para superar a morte da irmã e da mãe
Arquivo pessoal
A prática frequente de atividade física pode estar relacionada com a capacidade do ser humano de encontrar propósito na vida, aponta um estudo americano. Pesquisas anteriores já haviam comprovado os benefícios da prática esportiva no controle de doenças e no aumento da expectativa de vida.
Após nove anos de observações e mais de 18 mil participantes, entre homens e mulheres a partir dos 50 anos, a investigação mostrou que quanto mais forte o senso de propósito na vida, mais ativas as pessoas são – e vice-versa.
Dor nas costas por fundo emocional ou má postura: especialistas dão dicas para evitar o problema
O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e da Universidade de Warwick, no Reino Unido, foi publicado no periódico científico americano “Journal of Behavioral Medicine”.
Os pesquisadores definem propósito na vida como a habilidade de desenvolver “metas e objetivos que dão direção e significado à vida.”
Silvania Dutra, de 49 anos, é professora de ensino básico em Munhuaçu (MG). Após perder a irmã mais velha e a mãe em um intervalo de apenas seis meses em 2017, ela se voltou para as corridas.
“No começo eu perdi meu chão. Depois, busquei outros estímulos para continuar vivendo. No meu trabalho, o pessoal começou a me chamar de fênix, falando que eu ressurgi das cinzas”, comenta Dutra.
“Quando mais a gente corre, mais dá vontade de correr”
Ela revela que os primeiros meses após a morte da irmã, Maria Lúcia, foram os mais difíceis. Além de irmãs, as duas eram muito amigas, trabalhavam juntas e passavam muito tempo uma na companhia da outra.
A indenização milionária a mulheres vítimas de próteses ‘baratas’ de silicone
“Apesar de sermos de uma família grande, nós duas éramos confidentes e estávamos sempre juntas. Eu sou viúva há 17 anos e ela era separada. Vivíamos uma para a outra e para nossos filhos”, revela Silvania.
Seis meses depois, quando se preparava para correr sua primeira grande prova, a mãe faleceu em decorrência de uma cirurgia cardíaca. Dessa vez, entretanto, ao invés de ceder para a depressão, resolveu expurgar o sentimento de dor e tristeza na prática esportiva.
Por incentivo de colegas, aceitou o convite para ir a um treino de corrida. Em sua primeira experiência, conseguiu percorrer 5 km – a distância é considerada um marco para corredores amadores.
” Quando eu corri a minha primeira prova, eu senti que tinha que correr por elas também. Eu estava ali por nós três. Eu tinha a oportunidade de viver – e isso é uma dádiva. No começo eu corria para não pensar nas coisas ruins, e hoje eu gosto. Quanto mais a gente corre, mais dá vontade de correr”, afirma.
Silvania Dutra encontrou no esporte uma forma de superar a morte da irmã e da mãe.
Arquivo pessoal
Atividade física e bem-estar
Embora a prática da atividade física esteja relacionada à melhora da qualidade de vida, estatísticas globais mostram que muitas pessoas, especialmente a população de meia-idade ou mais velha, não são adeptas ao hábito de se exercitar.
Interessados em observar os impactos da atividade física ao longo do envelhecimento humano, os pesquisadores se debruçaram sobre o tema do propósito na vida dentro dessa rotina.
“Os psicólogos há muito tempo argumentam que ter um senso de propósito estimula a vontade de viver e a motivação para realizar ações que prolonguem a vida”, afirmam os pesquisadores .
Para chegar às conclusões, os pesquisadores utilizaram a base de dados do projeto Health and Retirement Study para entrevistar homens e mulheres a partir dos 50 anos. Poucos anos depois, as entrevistas foram feitas novamente para verificar se as respostas haviam mudado ou não.
As respostas coletadas foram analisadas e comparadas para verificar quanto e com que frequência as pessoas se movimentaram ao longo dos anos e quão forte estava a percepção de senso de propósito na vida em cada um desses momentos.
Os resultados revelaram uma relação bilateral. Pessoas com vidas ativas apresentaram um senso de propósito crescente ao longo dos anos, enquanto que, paralelamente, aqueles cujo senso de propósito era mais forte, desenvolveram o hábito da atividade física.
“Pessoas com forte senso de propósito na vida são mais propensas a cuidar de suas vidas, o que pode incluir ser fisicamente ativo”, afirmam os pesquisadores do estudo.
Compreender a solidão
Silvania em sua primeira prova de corrida após a morte da mãe, em setembro de 2017
Arquivo pessoal
Silvania Dutra conta que a corrida a ajudou a compreender a solidão e ter uma relação positiva consigo mesma. Viúva há 17 anos, ela mora sozinha desde que a sua filha única se casou.
“A corrida me ensinou que, por mais que você esteja com um grupo, se não for pelas suas pernas você não chega a lugar nenhum. Hoje eu aprendi a viver comigo mesma. Eu passei a ver a minha situação como liberdade, e não como solidão”, conta.
Agora Silvania se prepara para correr 42 km de uma maratona completa.
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Ciência e Saúde

Pesquisa da USP analisa impacto da inatividade física em mulheres durante a pandemia

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Os resultados mais preocupantes se referem aos exames clínicos: aumento médio de 39,8% na taxa de insulina e de 8% nos níveis de colesterol no sangue. De acordo com estudo, mulheres entre 50 e 70 anos que pararam suas atividades durante a pandemia tiveram piora na saúde.
Marcos Serra Lima/G1
Estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) mostra que, em um intervalo de apenas 16 semanas durante a pandemia, mulheres de 50 a 70 anos que pararam com suas atividades externas diárias apresentaram piora no estado geral de saúde.
A Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) avaliou na pesquisa os impactos da inatividade física no envelhecimento da população não infectada pelo vírus. Os resultados foram publicados na revista científica “Experimental Gerontology”.
Estudo feito com ‘supercentenários’ liga longevidade à regeneração do DNA
Ao todo, os pesquisadores acompanharam 34 mulheres cujo ritmo de atividade física já era considerado baixo e com a pandemia se agravou. As primeiras amostras foram colhidas em fevereiro de 2020, antes do começo da pandemia de Covid-19. Depois foi feito um novo levantamento em junho.
Embora os testes feitos após o período de confinamento não tenham mostrado alterações significativas no peso, IMC, percentual de gordura corporal e circunferência abdominal, houve piora no quadro geral de saúde das participantes.
Os resultados mais preocupantes se referem aos exames clínicos: aumento médio de 39,8% na taxa de insulina e de 8% nos níveis de colesterol no sangue.
A longo prazo, o aumento nos níveis de insulina pode levar ao aparecimento de diabetes, enquanto as alterações nas taxas de triglicérides podem levar ao aumento de riscos cardiovasculares.
Os exames também revelaram aumento de 9,7% de hemoglobina glicada, 1,3% de glicemia (valor considerado não significativo) e queda de 10% na porcentagem de plaquetas no sangue.
Como o estudo foi feito
Para compor o estudo, os pesquisadores compararam alterações no peso, índice de massa corporal (IMC), percentual de gordura corporal, circunferência abdominal, pressão arterial, força de preensão manual (medida com um dinamômetro, aparelho que se aperta com as mãos) e perfil alimentar no período avaliado.
As participantes também fizeram exames de sangue e uma avaliação de capacidade cardiorrespiratória após uma caminhada de seis minutos.
“Escolhemos estudar o impacto da inatividade física durante a pandemia de Covid-19 em mulheres entre 50 e 70 anos porque nessa faixa etária as doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e hipertensão são mais frequentes”, explicou Carlos Bueno Junior, professor da EEFERP na área de envelhecimento e um dos autores do artigo.
Os homens não foram avaliados na investigação por falta de participantes interessados em integrar o estudo. “Isso está relacionado a questões culturais de que mulheres tendem a procurar mais por serviços de saúde”, afirma Bueno.
Diabetes pode agravar a Covid e muitos pacientes desconhecem estar no grupo de risco, alerta especialista
Segundo os resultados, as mulheres observadas apresentaram perda de 5,6% na força muscular e de 4,4% no condicionamento aeróbico.
Pessoa realiza teste de glicemia para medir os níveis de açúcar no sangue.
Wikimedia
“Apenas um período de16 semanas já causou efeitos estatisticamente significativos na saúde das pessoas. Imagine agora, após mais de um ano de pandemia? Não fizemos estudos, mas provavelmente os impactos negativos são ainda maiores”, afirmou Bueno.
Além de Bueno, também participaram do estudo Ellen de Freitas, professora da EEFERP-USP, e dos estudantes de mestrado João Ribeiro de Lima e Gabriela Abud.
Comprometimentos a longo prazo
Os pesquisadores colheram as últimas amostras das participantes há quase um ano. De lá para cá, a pandemia de Covid-19 só se agravou, exigindo que a quarentena fosse estendida.
Bueno não descarta a realização de uma nova pesquisa com o intuito de investigar os efeitos da inatividade física por períodos que superem os 12 meses de quarentena. Para ele, o período após a pandemia poderá revelar aumento de doenças e na procura de tratamento nos serviços de saúde.
“A pandemia irá refletir em resultados a longo prazo. Após a pandemia haverá impactos grandes em todo o sistema de saúde que podem durar anos, e não só entre os que foram infectados. Haverá aumento de doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, hipertensão e mesmo doenças mentais”, afirma Bueno.
A prática de exercício físico, defende o pesquisador, é fundamental, ainda que na pandemia. Enquanto parques e academias estão fechadas, o pesquisador recomenda que as atividades sejam feitas em casa, seguindo as indicações de profissionais que atendam on-line. No caso dos idosos, o risco de lesões é maior e necessita de acompanhamento.
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